quarta-feira, 26 de outubro de 2011

QUEBRANDO O TABU

Atenção amigos para o documentário do brasileiro Fernando Grostein.

Participação de Fernando Henrique Cardoso e Bill Clinton.

Site do filme:
http://www.quebrandootabu.com.br/

Quer baixar?
http://cinemacultura.com/?cat=75

CCRM É CULTURA.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Crises, dores, adversidades?! Oba! - Pelo Prof. Edilson Pinto


Crises, dores, adversidades?! Oba!
            Caro leitor, não pense que eu sou masoquista. Apesar do título desse artigo e ainda o fato de ter escolhido a saúde e a educação para trabalhar, mesmo assim, me considero um otimista inveterado. Se fico feliz com crises, dores e adversidades é porque considero que somente através delas é que poderemos: crescer, aprender e melhorar como seres humanos.
            Zona de conforto, para mim, é igual ao câncer da vida. Aliás, não é só minha esta opinião não. Leonardo Boff tem também a mesma idéia: “As crises fazem pensar; os padecimentos pessoais e coletivos permitem o crescimento”. Demétrio de Falero, o primeiro bibliotecário de Alexandria, também tinha esta receita: “Não há homem mais infeliz do que aquele que nunca passou por adversidades”.
Viver em brancas nuvens, em plácido repouso, faz as pessoas adormecerem. É preciso sentir o frio da desgraça para não ser apenas espectro de homem e passar pela vida e vivê-la. O poeta Francisco Otaviano no seu poema “Desilusões da vida”, nos mostra muito bem isso. Não é à toa, caro leitor, que na China a palavra crise tem dois significados: Perigo e Oportunidade. E é a maneira de como reagiremos a ela, que fará toda a diferença.
Li recentemente no livro “Era uma vez uma empresa”, do escritor Gabriel Garcia de Oro, uma fábula interessante: Um rapaz vivia se lamentando dos seus infortúnios e já estava a ponto de desistir de tudo. Até mesmo de sua vida. Aí surgiu uma velha bruxa (veja caro leitor, nem sempre as bruxas são tão perigosas como parecem...). Ela então chamou o jovem rapaz até a cozinha da sua casa, e lá chegando, encheu três panelas com água e as colocou no fogo. Na primeira panela, jogou cenouras; na segunda, colocou ovos; na terceira, colocou um punhado de café. Após vinte minutos, apagou o fogo e depositou as cenouras e os ovos num prato e o café numa xícara. Então, pediu ao jovem rapaz desiludido, para se aproximar e t ocar nas cenouras e nos ovos. O primeiro estava mole; o segundo estava duro. E o café, ao bebê-lo, disse o rapaz: “está uma delícia!”. Moral da fábula: apesar da adversidade ser a mesma, a água fervente, um ficou mole, o outro endureceu, mas somente um transformou a água em algo extraordinário: o café.
Extraordinária mesmo, caro leitor, é a história desses grandes homens da música clássica: Johann Pachelbel, que após perder a mulher e seu filho contaminados pela peste, fez uma música belíssima que nos emociona até hoje, o seu Cânone; Fréderic Chopin vítima de tuberculose, desde a infância, deixou uma vasta obra musical. E o que dizer do genial e magnífico Ludwig van Beethoven, que após a perda da mãe, passou a conviver com um pai alcoólatra e aos vinte anos ficou praticamente surdo, a ponto de um dia ter pensado em colocar fim na sua vida, como disse no seu “Testamento de Heiligenstadt”. A sua Nona sinfonia (Ode à alegria), uma das mais belas músicas da huma nidade, termina com um apelo: “Oh, Amigos! Mudemos o tom; entoemos algo mais prazeroso e alegre!”.
Sim, caro leitor! Precisamos mudar o tom das crises, das dores e das adversidades. Precisamos ter consciência que ostra feliz não produz pérola. E que tem razão, portanto, Sartre ao afirmar: “não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim”.
Vivemos em um país, onde reina a desonestidade aliada a incompetência dos nossos “pseudo-líderes”. Vivemos momentos de crises, dores e adversidades onde cada vez mais pagamos impostos, anuidades, etc. etc. e vemos este dinheiro todo ser escorrido pelos ralos da corrupção. E o que é pior, onde mais deveria ter honestidade, caráter ilibado, atitudes corretas e princípios éticos são onde menos se tem... Mas se isso acontece, grande parte - ou senão toda- é culpa da nossa inércia, do nosso plácido repouso, do deitado eternamente em berço esplêndido...
É preciso acordar! É preciso se unir! É preciso mudar o tom disso tudo. O perigo que estas pessoas desonestas e incompetentes têm representado ao longo de todos esses anos, tem que virar oportunidade de mudança. E é tão fácil essa mudança. Basta somente um pequeno momento de reflexão, antes de votar, e acompanhar e cobrar, com afinco, que o que foi prometido seja cumprido. É incrível como a população não percebe a sua força. É o nosso conformismo que encoraja esses desonestos.
Certa vez, um velho mestre, na companhia de seu discípulo, resolveu visitar uma família extremamente pobre - pai, mãe, quatro filhos e dois avôs - que contava com um único bem: uma vaca muito magra cujo leite mal dava para alimentar a todos. Após, passar a noite com esta família pobre, mas hospitaleira, o velho mestre acordou o seu discípulo, ainda de madrugada, e disse: “hora da lição!”. Saíram os dois da casa, sem fazer barulho, e o velho mestre, sob o olhar atônito do discípulo, degolou a vaca.  O aluno inconformado cobrou do mestre: “que diabo de lição é essa?!”. O velho mestre apenas disse: “vamos para casa!”. Após um ano, voltaram a visitar a família e o que viram no lugar do velho casebre, foi um a casa grande e luxuosa. O pai, bem vestido, lhes contou que, após a morte da vaca, eles tiveram que mudar o estilo de vida: “a vaca era o nosso sustento; após a sua morte e em dificuldade, tivemos que limpar o quintal, conseguir algumas sementes e plantar. Com o dinheiro das hortaliças vendidas compramos mais sementes...”. Enfim, a vaca não era o único bem da família, mas sim, a prisão para uma vida de conformismo e mediocridade.
Crises, dores, adversidades?! Oba! Um dia vamos acordar...
Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Cidade da Esperança. A última que morre.


Os últimos anos tem sido desanimadores. Trabalhando há três anos na Policlínica Oeste, no bairro Cidade da Esperança (ou simplesmente “Esperança”), em Natal, e exercendo a Psiquiatria no nível ambulatorial, sou testemunha do descaso e desorganização do serviço público, da assistência em saúde mental neste município. Situação semelhante em todas especialidades, acredito.
Pra início de conversa, o estado físico da unidade é deplorável. Costumo dizer que se vão implodir o Machadão para construir outro estádio milionário, não custaria muito dar uma passadinha lá na “Esperança”, e com o resto dos explosivos derrubar também o centro, construindo um novo com o que restou da metralha daquele estádio. Parece maluco, mas o inverso é tão bem absorvido pelas pessoas, que eu me dou conta que a prioridade é outra mesmo. Na verdade, por um período nem precisava de implosão. No ano de 2009, quando chegava mais uma vez para o atendimento, fui informado que mudaria de sala, pois na minha costumeira, o teto havia caído. Caiu fora do meu horário de atendimento e graças a Deus, “Esperança” é última que morre. Recentemente, o muro caiu também, mas meu carro estava em outro lu gar. Vou escapando.
O Distrito Oeste tem cerca de 250 mil habitantes, composto pela Cidade da Esperança e mais nove bairros, clientela que se dedica aquele ambulatório. Entendendo ambulatório como atenção na comunidade, extra-hospitalar, não consulto somente casos elementares ou que não precisem de maior suporte. A clientela é absurdamente grave, crônica, casos complexos, em conjunto com outros transtornos mais leves, que estão se tornando cada vez menos comuns. No meu papel, encaminho estes pacientes para níveis mais organizados e consistentes de atendimento, segundo tenho informação pelo Ministério da Saúde, os chamados CAPS, porém os pacientes retornam, não conseguem ser absorvidos pelos CAPS, e voltam, claro, para a “Esperança”, onde sabem que serão atendidos de fato, afinal é a última que morre.  
Mas a “Esperança” não é exclusividade destes bairros. Toda Natal e municípios vizinhos vão atrás de atendimento pelo Psiquiatra, para lá mesmo, onde o teto cai e o muro cai, mas por não ter morrido ainda, é a última alternativa. Ambulatório de Psiquiatria não é prioridade do SUS. Há quem diga que o ambulatório não serve para nada, mas estranhamente, os CAPS também encaminham para a Policlínica, além de hospitais, PSFs, NASFs, presídios, órgãos variados da justiça, etc.
No atendimento, a bizarrice é o comum. Atendo na sala da Ginecologia, decorada pelo mofo e infiltrações, entre colposcópios e banquinhos, ornamentados pela ferrugem, mobiliada por cadeiras de ergonomia jurássica, design habitual do SUS. Invariavelmente não tem receituário, por exemplo, e muitos voltam para casa sem a receita. Não tem sido muito bom informar ao paciente que eu não posso fazer nada e que já tentei de tudo. As reclamações não acabam. Quando aparece o receituário, não tem a medicação nas farmácias, mesmo as mais simples.
A peregrinação continua para o paciente, em busca de local que tenha receituário, de farmácia que tenha medicação, de dinheiro para comprar a medicação que não apareceu, aumentando seu custo de vida. O que não diminui é o número de pacientes, de pessoas sem atendimento, de pessoas adoecendo. Mesmo assim, na “Esperança”, o último suspiro pode ser dado, a última queixa cuspida. Estamos lá para escutar. Isso não faltará, posso garantir, depende de mim.
Na “Esperança” nós seguramos a barra, sem medo, atendendo em situação precaríssima, pacientes violentos muitas vezes, alcoolizados, esquecidos pela sociedade, quase invisíveis, mas lá estão sendo vistos, por mim pelo menos, não estou cego ainda.
Não tenho como saber, quantos por depositarem na “Esperança” sua última esperança, estão conseguindo caminhar, viver, sem internamento hospitalar, sorrir um pouco que seja. Mas sei que são muitos, que o ambulatório tem sua inestimável importância, vai resistindo, nem que seja com uma escuta apenas, com um olhar apenas, mesmo que seja com nossa pequena contribuição, á margem dos discursos teóricos dos gestores, do duvidoso compromisso político das autoridades. Ainda há esperança.

Gustavo Xavier é psiquiatra e esperançoso.