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domingo, 17 de fevereiro de 2013

De Drummond




Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.


Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou.

Chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou,

dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou para mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.


(Caso do Vestido - A Rosa do Povo)

domingo, 12 de agosto de 2012

Hoje, Sonhei Diferente! - por Wilson Cleto Filho


Hoje sonhei diferente
Um sonho danado de lindo
Com luas, nuvens e ventos
Um gigante e um belo menino

Sonhava que em muito distante
Após o seu próprio acalanto
Dormia sozinho, o gigante
Não tinha ninguém no seu canto

Por noites chorava baixinho
Com medo que alguém escutasse
Mas como? Se era sozinho
E gigante chorar? Que disparate

Foi quando chegou de mansinho
Naquele tão vasto lugar
Um menino pe-quenininho
Que não parava de chorar

De fato, de tão pequenino
Cabia-lhe na palma da mão
Mas tinha algo grande, o menino
Que tocava fundo o coração

E o gigante, de triste e sozinho
Passou a feliz e brincalhão
Ainda chorava baixinho
Mas de alegria e emoção

Toda noite, com a voz embargada
E as lágrimas teimando em da fronte cair
Cantava cantigas de contos de fada
O peito doia só de vê-lo dormir

E assim, "fôra" feliz o gigante
Com o belo menino que veio ao lugar
Fez-se então um acordo, que dali em diante
Nunca iriam na vida, jamais, se separar

Ao acordar, de manhã, deste sonho divino
E olhar-te no berço, ver-te respirar
Confesso, não sei se eras tu o menino
Ou, se de tão forte, és o gigante a chorar!


Wilson Cleto de Medeiros Filho

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Soneto de Esperança, por Wilson Cleto Filho



Soneto de Esperança
(e desculpa ao soneto)

E porque fostes tão desejado
Que por tantos caminhos sofridos
Pelo amor de teus pais construído
És milagre da vida imolado

És perfume da rosa exalado
Do mais belo jardim, mais florido
És a réstia do Sol encarnado
És um sonho latente, dormido

E ao invés de um brinquedo qualquer... Carrossel
Eu farei diferente, um presente em papel
Pra você (que nem sabe) criança

Fiz pra ti um soneto, com rimas ao léu
Poucos versos jogados pra cima, pro Céu
Um soneto chamado Esperança


 Wilson Cleto de Medeiros Filho
Pedindo perdão pela métrica,
mas quem você pensa que é
para calar, de alegria, um poeta?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

ARTIGO - WILSON FILHO

Terceirizaram as Mães!


Segunda-feira, 21:00, celular tocando...
- Alô, Dr. João (nome fictício)? Aqui é a mãe do Paulinho (nome também fictício, mas que vem sempre no diminutivo). É que nós passamos em consulta com o senhor sexta-feira, lembra? O Paulinho estava com febre.
- Ah, lembro sim! Trata-se de uma gripe, não é mesmo?
- Iiiisso, Doutor!      Então...    A febre baixou, porém a tosse seca persiste à noite.
- Olha senhora, se não me engano, foi explicado ao acompanhante, que a tosse provavelmente persistiria mais tempo. Receitei, inclusive, medicação para aliviar os sintomas... (interrompido)
- PUTZ! Mas isso a babá não me falou!!!
DR JOÃO DESLIGA O TELEFONE

            Tônica. As crianças não vêm mais acompanhadas de seus pais às consultas com o Pediatra, seja na puericultura ou por intercorrências. É uma variedade infinda de parentesco e afinidade, chegando ao cúmulo da frase: “Não, não! Ele é filho da minha vizinha; é que eu falei que ia trazer o meu...”. Tenho adotado a seguinte classificação no item “informante” de minha anamnese: (a) mãe/pai, (b) avós, (c) babás, (d) tios e... (e) outros.
Tudo bem; dou o braço a torcer. Algumas babás são melhores em relatar os sintomas de seus “pseudofilhos” do que as próprias mães que, nos dias atuais, dedicam-se cada vez mais ao trabalho, atividades culturais, salões de beleza, liquidações, saldões de balanço, não necessariamente nesta ordem.
Há, entretanto, uma situação interessante que se dá quando estes pacientes vêm ao Pediatra acompanhados por pessoas que não têm qualquer contato com o dia-a-dia da criança, como vizinhos e amigos (dos pais, claro). A entrevista médica foi acrescida de uma ferramenta tecnológica incrível – o telefone celular. Gasta-se muito mais tempo aguardando o acompanhante perguntar à mãe da criança sobre sintomas, medicações em uso, horários, doses, se há outras pessoas doentes na família etc.
E não para por ai! Após o exame físico, chega a hora de explicar o diagnóstico e passar as orientações e receitas. Neste momento, sugiro de cara, solicitar o telefone e falar diretamente para a mãe ou o pai da criança, tomando o cuidado de gravar a conversação para evitar situação semelhante à descrita no início deste artigo.
Em tempos de comércio em alta e concorrência acirrada, é esperado em breve um novo plano das operadoras de telefonia móvel para este público que cresce a cada dia.
Provavelmente, chamar-se-á TIMPed, ClaroKids, OiDr...
Como diria um estimado amigo do C.C.R.M.: “O que é a tecnologia...”

Wilson Cleto de Medeiros Filho
Pediatra (somente consultas presenciais)