quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Artigo do Prof Edilson Pinto - Carta ao "Patrão"


Carta ao “Patrão”
“Há tempo para tudo debaixo do sol.
Há tempo de escrever; há tempo de calar!”.

Caro “Patrão” Jornalista Carlos Santos,
Por favor, não me “demita” do seu blog. Eu sei que faz tempo que não produzo um texto. Mas, saiba que estou acobertado pela Lei nº 11.770, de 9 de setembro de 2008, que instituiu o programa de empresa cidadã, prorrogando o período de licença maternidade de 120 para 180 dias, ou seja, de quatro para seis meses.
Assim, se levarmos em conta que a minha última “gestação e trabalho de parto” foi exatamente em setembro de 2012, veja que estou dentro do prazo, perfeitamente dentro da Lei. Portanto, só em março de 2013 é que eu teria que produzir mais um filho...
Sim! Meu caro, não tenha dúvida: um texto é como um filho. Muitas vezes, passa nove meses em nossa cabeça – esse útero terrível, como nos ensina Rubem Alves-, pois “Dela tanto pode sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores”... Outras vezes, a gestação é interrompida e o parto precoce - repleto de contrações e dores-, faz nascer à criança que estava dentro de nós.
Confesso. Admiro sim, quem consegue ter filhos, e escreve como Dipirona: de seis em seis horas. Haja coragem de pagar pensão alimentícia!... Mas não é o meu caso. Talvez por ser cirurgião e também por ser admirador de Nietzsche, só consigo valorizar aquilo que é escrito com sangue, pois sangue é espírito. Imagine, então, caro patrão, se todo dia eu escrevesse, estaria tão anêmico, que nem todas as bolsas de sangue do HEMONORTE restaurariam o meu hematócrito... E sem hemoglobina não há oxigênio; sem oxigênio, o filho é um natimorto...
 Portanto, desculpe-me o meu egoísmo. Mas, só escrevo quando tenho vontade. Quando a dor é tão intensa que nenhuma morfina é capaz de aliviá-la. Pois ter filhos, caro “patrão”, é doloroso. Escrever é estar doente dos olhos... O prazer da criação e a dor andam juntos, são irmãos gêmeos.
E, por favor, caro “patrão” não me condene pelo meu egoísmo. Até porque se só escrevo para mim é porque escrevo para todos. Como? Aprendi isso com o magnífico Orhan Pamuk, prêmio Nobel de literatura, no seu belo livro “A maleta de meu pai”: “Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos; tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-no s dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura. O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem... Se ele usa suas feridas secretas como ponto de partida, consciente disso ou não, está depositando uma grande fé na humanidade. Minha confiança vem da convicção de que todos os seres humanos são parecidos, que os outros carregam feridas como as minhas.”.
Por isso que Guimarães Rosa tem razão quando diz que cada um de nós tem um grande SERTÃO dentro de si... E é por causa desse sertão, que muitas vezes somos incompreendidos, criticados e ridicularizados, já que ninguém sabe o que se passa dentro de cada escritor, durante a sua gestação.
Então, muitas vezes, querem nos corrigir: “Retire essas reticências todas! Acabe com tantas citações, elas nos cassam!” Ora, caro patrão! Veja que todo filho tem que ser mesmo imperfeito. Se Deus quisesse a perfeição não teria feito tantos ingratos, desonestos, mentirosos, oportunistas, invejosos, sanguessugas, etc. etc. E uma raça pura, sem defeitos, não era o que Hitler preconizava?! Por isso, tenho medo da eugenia!
Além disso, caro “patrão”, é bom lembrar que todo escritor tem as suas manias. Enquanto, Faulkner só escrevia pela manhã; Hemingway escrevia de pé. Já Balzac só escrevia bebendo café; e o que dizer de Schiller que guardava na sua escrivaninha maças podres cujo cheiro o embriagava e o estimulava... Eu, arremedo de escritor, mais para “ladrão de citações”, não poderia ficar para trás.
Veja caro “patrão” – e que fique como um segredo só entre nós-, mas a minha inspiração ocorre nos momentos mais inoportunos: ou quando estou debaixo do chuveiro ou dentro do elevador, rumo a uma reunião importante. E quantas não foram às vezes que tive de interromper o banho e sair todo ensaboado do box, pegar uma caneta, papel e escrever o que a cabeça começava a parir; ou ainda ter que voltar do estacionamento do meu prédio e sentar em frente ao computador, para escrever... Acho que dentro de mim – já que somos muitos como diz o poeta Manoel de Barros: “Eu sou muitas pessoas destroçadas!”-, tem alguém que não gosta de banhos ou d e cumprir horários...
Pois bem! Depois de todas essas explicações, espero que o meu processo de “demissão” seja interrompido e que o meu espaço no seu blog (http://blogcarlossantos.com.br/) continue o mesmo. Afinal, qualquer tribunal de trabalho dará ganho de causa ao meu pleito. E eu sei que embora processos não lhe intimida, já que estás respondendo aos 9.865.489 (nove milhões oitocentos e sessenta e cinco mil quatrocentos e oitenta e nove) processos movidos contra a sua pessoa pela antiga gestão municipal de Mossoró, não seria melhor não aborrecermos a justiça com mais essa pendenga?
Até porque outro dia, logo após assistir ao filme “O terminal”, com Tom Hanks, que conta a história de um viajante que impedido de entrar no EUA, passa a viver dentro de um aeroporto, fui dormir e sonhei com uma versão jerimum caboclo: os oficiais de justiça do país de Mossoró, cansados de levarem intimação para o jornalista Carlos Santos, resolvem fazer um abaixo assinado, pedindo que você passe a morar nas dependências do fórum de justiça, pois assim economizaria o tempo deles e também as árvores da mata amazônica... A cabeça é ou não um útero?!
Ah! E não se esqueça do meu pagamento, afinal não acertamos que a sua amizade era o meu salário?! Então, venha a Natal tomar um café e colocaremos as noticias em dia, ok?
Abs, do seu empregado Edilson Pinto.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

FIOS DE AÇO, MEU GESTOR.

Com todo respeito a Lupicínio Rodrigues, autor de "Nervos de aço", esta paródia:

FIOS DE AÇO

Você sabe o que é ter uma dor, meu gestor?
Uma facada em uma mulher.
E depois chamar o SAMU, meu gestor,
no meio de uma greve qualquer?

Você sabe o que é ter uma dor, meu gestor?
E por ela quase morrer.
E depois perfurar o seu baço,
Mas nem um esparadrapo não ter?

Há gestores sem fios de aço,
Sem sangue nas veias e sem coração,
Mas não sei se passando o que eu passo
Aguenta viver dentro deste plantão.

Eu não sei se o que tiro do peito
É raiva, é desrespeito, calamidade ou horror.
Eu só sei é que quando eu vejo
Me dá uma revolta da morte ou da dor.


Gustavo está sem nervos e sem fios.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

SÚPLICA DE UM PAPAI NOEL NATALENSE


Feliz Natal !
Ho! Ho! Ho!

Mas meu salário nem saiu.

Nem o lixo pegam mais.

A prefeita já caiu

e ninguém correu atrás.


Vou andando pelas ruas,

tropeçando em buraco,

com as árvores quase nuas,

sem o poste decorado.


Feliz Natal ?
Oh! Oh! Oh!


Já roubaram tanto a gente.

Todo tipo de barraco.

Este ano sem presente.

Não carrego nem o saco.


Minha rena tá com sede.

A CAERN nem encheu.

Minha grana acabou.

Meu trenó tá sem pneu.


Feliz Natal...
Ai! Ai! Ai!


Minha coluna tá doendo.

Mas no posto não tem doutor.

Minha rua tá fedendo.

Foi a prefeita que peidou!


Minha ceia tá vazia.

Este ano sem peru.

Rasgou a minha fantasia.

Subiu o meu IPTU.


Feliz Natal.
Ra! Ra! Ra!


Quem tá bem é rapariga.

Com ladrão solto na rua.

E eu com dor de barrriga,

tanto solta, tanto sua.
 

Mas eu acho que aprendi.

Numa cidade sem prefeito:

os olhos ter que abrir

e lutar por mais respeito.



Dr. Gustavo é Psiquiatra e  ficou sem decoração de Natal.











domingo, 25 de novembro de 2012

DEPRESSÃO: A VEJA E SUAS CAPAS



Em 1987, o lançamento do Prozac (Fluoxetina) causou furor no meio científico e foi apontada pela mídia como a famosa "droga da felicidade". Na divulgação da droga, que já completa 25 anos, prometia-se: "Better than ever".

Na edição da revista Veja de 31/03/1999, 12 anos depois, a capa já avisava: "O mal já pode ser vencido com a ajuda de remédios".

Na capa desta semana, 28/11/2012, 13 anos depois, afirma: "Depressão: A promessa de cura. A cetamina é a primeira esperança de tratamento totalmente eficaz da doenca..."

 Em 2025, aguardemos a nova capa.

Gustavo Xavier é psiquiatra e contrário aos sensacionalismos

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

NATAL, 374 ANOS DEPOIS.

DN Online - Política - Assepsia: veja quem é quem na rede de corrupção disseminada na administração municipal


Em 1638, o conde MAURÍCIO DE NASSAU informava encontrar-se NATAL, "AGORA MUI DECAÍDA". O relatório de ADRIANO VAN DER DUSSEN, de 1639, esclarecia encontrar-se a cidade 'TOTALMENTE ARRUINADA", o que é confirmado por BARLÉU, que indica o fato de apresentar NATAL um "ASPECTO TRISTE E ACABRUNHADOR PELAS RUÍNAS, VESTÍGIOS DE GUERRA".

(do livro Os Holandeses na Capitania do Rio Grande, de Olavo de Medeiros Filho).
Eu diria que a cidade encontra-se, 374 anos depois, ainda muito decaída, arruinada moralmente, com aspecto triste e vestígios de guerra, cheia de buracos. A impunidade fez os jovens tomarem coragem para roubar, sem vergonha nenhuma. Ter na família, um filho ou parente corrupto parece se algo absorvido com vista grossa, basta contratar um bom (?) advogado e tudo estará bem. E enfim, coloca-se os filhos, os netos, jovens ambiciosos, sem princípios morais, estes já perdidos e vencidos pela contaminante corrupção, do dinheiro fácil. "Aguentar tanto problema? ele tinha mais é que levar um por fora", talvez seja o alento para os amigos próximos. "Ele é inocente, tudo será esclarecido", a negação habitual dos pais e da família. Nessa crise moral e de costumes, sabido é quem leva a melhor. Ladrão virou intelectual, comparsa vira doutor. Um guerra que deixa muitos mortos ainda.
Gustavo Xavier ficou triste e decepcionado. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Mote e Glosa - por Wilson Cleto Filho
















Mote:
Com o ipê em flor até janeiro
É certeza de inverno o ano inteiro

Glosa:
Em sua labuta diária
Segue forte o sertanejo
Na cantiga triste e solitária
De um esquecido realejo.
Querendo que a seca malvada
Seja só um mal passageiro
Sonha, em cada alvorada
Com o ipê em flor até janeiro.

Sofrendo "das cruis" e de fome
Mas sem se deixar abalar
Segue com fé, este homem
Não pode com os filhos faltar.
É sempre bem confiante
Mantém o seu ar prazenteiro
Pois sente que dali em diante
É certeza de inverno o ano inteiro.

Wilson Cleto de Medeiros Filho

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

MODA EM NATAL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL



Texto originalmente publicado na revista Glam #11. As duas primeiras imagens
 
que ilustram o artigo foram cedidas por Minervino Wanderley.
 
 
 
 
 
Seu Alcides mostra aos soldados americanos a mercadoria que valia ouro: Meia-calça!
 
 
Natal, rua Ulisses caldas, um dia qualquer do ano de 1943. Um grupo de soldados americanos visitam uma loja à procura de um item raro e valiosíssimo no período. Eles não são os primeiros. A fama da loja atravessou o oceano e, antes mesmo de chegarem a Natal, eles já sabem que precisarão visitar o lugar.
 
A loja é a Casa Rio – que anos depois deu origem às lojas Rio Center, que existem até hoje na cidade. Os jovens americanos, como sempre, vestem seus uniformes cáqui e chamam atenção por onde passam. O que eles procuram de tão valioso? Meia-calça de seda!
 
Um par delas vale a felicidade de uma noiva, uma irmã, uma mãe, e a gratidão eterna dessas figuras femininas quando ele voltar para casa.
 
A cena repetiu-se durante todos os anos em que os americanos estiveram por aqui. 
 
Quem conta é dona Guiomar Araújo, viúva de Alcides Araújo, que administrava a loja junto com o pai.
 
“Os americanos ficavam doidos quando viam que a gente vendia meia-calça. Eles diziam que não tinha mais meia-calça no mundo por causa da guerra. Compravam muito, pagavam em dólar.
 
Eu e Alcides tivemos que pedir muito mais peças para o fornecedor em São Paulo. Era um pedido tão grande que o fornecedor achou que a gente estava de brincadeira, e ligou muito pra mim muito chateado. Eu disse ‘mande as meias que eu pago adiantado’!
 
Enquanto os americanos estiveram por aqui, vendi mais meia-calça que na minha vida toda, eu acho” relembra ela, com uma memória irretocável para os seus 90 anos.
 
 
 
 
 
 
Dona Guiomar na porta da loja. Notem o “english spoken”
 
A história contada por dona Guiomar nos diz muito sobre a realidade de Natal no período da Segunda Guerra, principalmente sobre a moda e sua ligação com os hábitos e costumes da população – que é o que interessa a este artigo. Mas para entender o que acontecia, precisamos primeiramente entender como a Segunda Guerra Mundial modificou a moda no mundo.

A guerra e o mundo
 
Os tailleurs com ares de uniforme militar, caracterísitcos dos anos 40
 
No início dos anos 40, Paris ainda dominava a geografia da moda. Podia-se dizer que a capital francesa era o centro do mundo no mapa da alta costura. E foi a partir de Paris que vieram as mudanças drásticas, impostas pela Ocupação, que transformou o visual das mulheres da década de 40.
 
A estética do glamour dos anos 30 foi declarada decadente pela política nazista alemã. No livro ‘A moda do século’, François Baudot registrou:
 
“A parisiense emagrece, suas roupas ficam mais pesadas e as solas de sapatos também. (…) assim, a partir de 1940 está proibido mais de que quatro metros de tecido para um mantô e um metro para chemisier (exceção feita apenas para as grávidas). Nenhum cinto de couro deve ter mais de quatro centímetros de largura.”
 
Durante toda a década, a estética será dominada pelo racionamento de roupas, a economia de botões e outros aviamentos e a reciclagem de peças antigas - teria surgido aí a customização?

Além disso, as mulheres sofrem com o sumiço da meia-calça. Todo o naylon e a seda produzidos na Europa eram aproveitados na fabricação de pára-quedas, e as – antes elegantíssimas – parisienses agora tem que se contentar com o uso de meias soquetes.
 
Com o tempo, as meias curtas passam a ser utilizadas até mesmo com vestidos de festas. Outra alternativa é maquiar as pernas e desenhar um traço fino na parte de trás, lembrando a costura da meia-calça. Essa é uma imagem icônica do período.
 

 
 
É famosa – e curiosa – também a história contada no livro ‘Moda & Guerra: Um retrato da França ocupada’ , de um soldado que, ao fim da guerra, levou o pára-quedas na mala para fazer o vestido de noiva da namorada.
E assim as pessoas sobreviviam nos duros anos 40.
 
tailleur com ares de uniforme militar, de ombros largos e saia reta, é o modelo mais usado no período. 
 
O unico elemento do visual feminino que não sofreu racionamento foram os chapéus. Isso fez com que a moda subisse – literalmente – à cabeça das mulheres, e se a roupa e os sapatos eram bem modestos, os chapéus e turbantes eram verdadeiras esculturas. Serviam para dar um ar mais arrumado ao visual, mas também para esconder cabelos mal cuidados e mal cortados, carentes de um salão de beleza.
 
O lenço na cabeça, usado pelas moças que foram trabalhar nas fábricas, logo foi incorporado ao visual feminino em todas as camadas da sociedade. Da operária à mulher do oficial – a única que ainda tinha algum dinheiro para comprar roupas novas.
 
Foi com o dinheiro das mulheres dos oficiais nazistas que a alta costura conseguiu sobreviver, mesmo que em coma, nesse período.
 
Os historiadores são categóricos em afirmar que, caso a alta costura tivesse parado de produzir por completo durante os anos de guerra, a França haveria perdido para sempre o lugar que ocupa no mapa da moda, o que mudaria completamente o panorama da moda atual.
 
 
 
A moda que subiu à cabeça
 
 
A guerra e Natal
 
 
Se à época da guerra Paris era um grande parque de diversões que foi fechado por falta de energia, Natal não passava de uma pequena vila que começava na Ribeira e terminava no Tirol. É difícil para as novas gerações imaginar essa antiga ordem da cidade, onde Ponta Negra era uma distante praia de veraneio.
 
Com os americanos veio também uma revolução significativa nos costumes da cidade. A professora e pesquisadora Josimey Costa registrou no documentário ‘Imagem sobre imagem – a Segunda Guerra em Natal’ depoimentos que remontam a influência que a guerra e a chegada dos americanos tiveram sobre Natal.
 
E o que mais chamou atenção da pesquisadora foi que a guerra era excitante para os moradores da então pacata capital potiguar. “Quando comecei a pesquisa eu tinha a ideia de que foi um período de tensão, que as pessoas viviam oprimidas, com medo da guerra chegar aqui. Mas o que percebi é que as pessoas vivem apesar disso e encontram – mesmo nos períodos mais trágicos – momentos de alegria”.
 
Os momentos de alegria trazidos pela guerra eram os bailes, a bebida, os chicletes, a música e os belos e
 
jovens soldados de cabelos loiros e olhos azuis – biotipo totalmente diferente dos potiguares. Um dos
 
entrevistados de Josimey no documentário, Alvamar Furtado, fez uma comparação interessante:
 
“Natal foi invadida por uma multidão de príncipes encantados”.
 
E quem tem tempo para ficar oprimido com tanta novidade na cidade?
 
Talvez só mesmo os rapazes natalenses, que perdiam feio para os americanos na hora da paquera. Os nativos eram formais, usavam terno e chapéu de palhinha. Já os estrangeiros, quando não estavam de uniforme, usavam camisas coloridas por fora da calça – sem “ensacar” como dizemos por aqui – e as mulheres achavam isso um charme.
 
Dona Guiomar lembra que os soldados também iam à Casa Rio comprar Chanel Nº 5, outro item escasso que fazia sucesso durante a guerra. E que isso deu margem para um golpe que ficou famoso na época: “tinha gente em Natal querendo dar uma de esperto.
 
Eles pegavam vidros de Chanel Nº 5 e dividiam em vários frascos. Completavam com outro perfume barato e vendiam para os americanos. Eles eram loucos por esse perfume, e compravam muito. Muitos caiam no golpe”, conta.
 
 
 
Anúncio anterior à II Guerra, década de 30
 
 
Também foram os americanos que trouxeram os calções curtos de helanca para os banhos de mar em Ponta Negra e Areia Preta. Antes disso, os rapazes natalenses usavam calções compridos na praia.
 
As moças passaram a querer usar maiô aberto nas costas, como as atrizes de Hollywood e as pin-ups dos calendários.
 
Mas por aqui a vigilância dos pais ainda era severa, e as mães geralmente cobriam as costas do maiô com uma peça de croché.
 
 
Foi a época também em que as mulheres começaram a usar calças compridas à la Marlene Dietrich. Só as solteiras usavam, não ficava bem para uma mãe de família andar de calças por aí.
 
E as moças que usavam eram “mal faladas”.
 
 
 
 
Marlene Dietrich, a musa de calças compridas
 
 
Os cabelos eram cacheados com bobs, as moças perdiam horas ondulandos os fios. Apesar do racionamento de tecidos no resto do mundo ter feito as saias minguarem, por aqui elas ainda eram rodadas. Ideais para balançar e rodopiar nos bailes do América.

Há estudos que defendem que nem tudo foram flores nesse período. Os preços por exemplo subiram vertiginosamente. Havia muito dólar circulando, e o comércio cobrava como se todos tivessem o mesmo rendimento dos americanos, quando na realidade a cidade era, de uma forma geral, muito pobre.
 
Mesmo assim, a maioria das pessoas que viveu aquela época a lembra com saudosismo, como uma época de ouro da cidade.
 
Talvez porque, em termos de moda e estética, Natal era uma bolha de glamour num mundo castigado pelo racionamento. Não faltava meia-calça nem Chanel Nº 5, mesmo que a maioria da população não tivesse o hábito de usar nem um nem outro.